29 setembro 2015

Depressão virtual



E
m tempos de redes sociais, fico pensando o que leva as pessoas – incluo-me nelas  – a viverem virtualmente. Para alguns, ir ao barzinho com os amigos da vida real já não tem mais a mesma graça se não for possível fazer uma selfie e postar na mesma hora, de preferência. As pessoas mal se conhecem e já “adicionam” uma amizade eterna com o selo do Facebook. Não ter um Instagram hoje é praticamente não ter vida. Parece que você não existe. Sua vida é medida em likes e seguidores. Outro dia, ouvi no rádio uma promoção, na qual um dos prêmios para o ganhador incluía ser seguido por um famoso no Instagram. Que prêmio! Não sou muito experiente em paquera, mas eu soube que, hoje em dia, trocar endereços da rede social é sinônimo de mais seriedade do que trocar telefones, por exemplo, afinal de contas sua página online é quase sua vida e deixar que um recém-conhecido a veja é realmente uma grande prova de honestidade para um começo de uma relação. Eu soube.

É engraçado como nas telas as pessoas são extremamente felizes, vivem um amor de novela, têm os melhores amigos do mundo e são bem sucedidos profissionalmente. É uma estratégia de marketing em todos os ramos da vida. Pense bem, o que poderia faltar? Apenas bons expectadores que comprem essa ideia. É, por algumas vezes, a vida feliz não existe assim, não exatamente desse jeito. Mas, nada que um ângulo bem focado que exclua a bagunça ao redor e um filtro earlybird não resolva. Pronto, cores vivas e retrô para o cenário cotidiano apagado. Que perfeito! Todos hão de concordar, digo “curtir”, não há dúvidas.


Pois bem, para quem é promotor da vida feliz, não há como negar que traz alguma felicidade para si mesmo. As pessoas podem querer compartilhar momentos felizes sim. Convenhamos que ser bem acolhido faz bem pra qualquer um, mesmo que não seja um carente típico. Ser aprovado por muitas pessoas ao mesmo tempo, ser famoso no seu mundinho. E, cá entre nós, todos querem seu momento de fama. Todos, sem exceção.

Mas, e quem está assistindo a essa felicidade eterna? Para quem é expectador, nem sempre traz felicidade. Às vezes, é até entristecedor. Nossa, ficar triste com a felicidade dos outros? Não, nem sempre ocorre por ser uma pessoa ruim. Às vezes, não há como impedir que comparações sejam feitas, por mais racional que você seja ou pareça ser. O cabelo do outro sempre aparece lindamente esvoaçante, enquanto o seu está grudado e todo na sua cara. Pessoas da sua idade já parecem ser milionárias mesmo tendo entrado no mercado de trabalho há pouco tempo, da mesma forma que você. Várias pessoas estão na Europa, mesmo com o euro valendo quase cinco reais, enquanto você pega a estrada de todo dia. E não é por passeio não é? Eu acredito. Aí você pensa: o que eu tenho feito de tão errado na vida para não ter todo esse sucesso arrebatador? É depressivo – e enganador, diga-se.

Isso tudo porque ninguém posta uma foto quando as coisas não andam tão bem. Sim, nem tudo são flores para todos, até para Giselle Bündchen. Mas, ninguém quer repercutir para os sete cantos do mundo que descobriu uma traição – exceto Joelma da banda Calypso – ou que perdeu o trabalho sensacional na multinacional e que, por isso, não tem mais tanto dinheiro assim e não viaja com os amigos. É, algumas pessoas até divulgam repetidamente uma vida na qual nada dá certo, geralmente acompanhadas de indiretas ou textos de autoajuda. Mas, vamos combinar, quem quer ficar vendo diariamente as tristezas das vidas dos outros? Eu mesma sou a primeira a dizer: “Ai, lá vem o depressivo!”. É como se já bastassem as próprias tristezas que cada um tem que passar na sua própria vida.

Sem entrar no mérito da sinceridade ou não de quem promove a suposta felicidade, mas olhando sob a perspectiva de quem é expectador, a verdade é que a eterna felicidade de um nem sempre faz bem para a cabeça de alguns, mas a tristeza seja lá de quem for, por mais real e verdadeira que seja, é que não traz felicidade mesmo. E talvez isso, de as pessoas mostrarem uma vida feliz, sempre tenha existido e não seja um mal desses tempos. Talvez seja até mais benéfico do que se suponha e tenha encorajado mudanças de vida. Veja seu álbum de fotos de família, aquele em que a gente colocava as fotos reveladas. As pessoas geralmente estão sorrindo e parecem felizes, seu cabelo até não parece tão amassado quanto você achava. As fotos registram momentos felizes. Esse é o papel delas: ajudar a registrar na memória tudo o que foi ou é bom. Ninguém quer registrar um momento ruim, não deveria querer, pelo menos. Mas, isso não deveria nos fazer achar que o céu delas sempre aparece azul todos os dias, diferente do nosso. Se não fossem os grandes exageros da autopromoção e autodepressão online, eu diria que a única coisa que mudou é que antes você precisava ser vizinho de alguém pra achar que a grama dele é mais verde. Hoje, você só precisa de internet.


Por falar nisso, vou até publicar esse texto aqui, mas não ache que todo dia eu acordo metida a colunista de revista não. Hoje mesmo, eu só fui dentista mais uma vez, graças a Deus. 

26 setembro 2015

O melhor que o Rio me deu.


Há quase três anos, eu falava sobre "voltar ao ar". Estava prestes a mudar de cidade e a possibilidade de dividir aqui as novas experiências que estavam por vir me deixava esperançosa quanto a superar os meus curiosos blackouts de criatividade. É, não foi bem assim que ocorreu... tudo o que tenho dessa tentativa frustrada são vários textos incompletos. O tempo foi implacável.

Certa vez, disseram-me que a vida não é uma corrida de cem metros, mas uma maratona. Que não se pode correr sempre em tiros desde a largada, mas é preciso guardar energia para conseguir alcançar a faixa de chegada. Que fantástico! Acho que Renato Teixeira pensou nisso quando escreveu: "Ando devagar porque já tive pressa...". Mas, eu somente experimentei essa verdade nos últimos três anos. Hoje, retomo esse ponto aqui insensato de mim que deixei de lado em razão de uma corrida especialmente longa que alcancei a faixa de chegada nesta semana. Um ciclo importante na minha maratona profissional, mas eu diria maratona da vida porque o que aprendi foi além.



M
orar no Rio sempre me pareceu bastante poético: “Encontro você ali no calçadão de Ipanema na altura da Vinícius de Moraes.” Vai dizer que não? A princesinha do mar, Urca e Praia Vermelha. O Cristo tem os braços abertos sobre a Guanabara. Sim, a Rua de Laranjeiras satisfeita sorri quando se chega ali. A lua parece deserta nas pedras do Arpoador. E do Leme ao Pontal realmente não há nada igual. Tudo palco da velha bossa e de tantos outros sons. Tudo aqui soa mar, recita poema e respira calor. E que calor! Como diria um professor: estudar no Rio 40° é para os fortes. Não, não há como discordar. Em dias que aquela sensação térmica está de torrar os miolos, a praia é tão convidativa até para os que não são tão fãs dela – imagina pra mim que sou fã? E já diria outro “amigo meu”: Um dia frio é que é um bom lugar pra ler um livro. O que não é nem um pouco o caso daqui a qualquer dia do ano.


O encontro com a Ortodontia foi lindo e suado, literal e metaforicamente. O conhecimento está, de fato, lá do outro lado do túnel Rebouças, longe do mar, bem mais no “de Janeiro” do que no Rio. E, foi ali mesmo, no “de Janeiro”, que o Rio me deu o que ele poderia me dar de mais especial, num cenário bem menos global que o de Manoel Carlos, na confusão do dia-a-dia, no sufoco de uma dúvida, na dor de qualquer coisa. O Rio me deu doses diárias de gente, gente como a gente. Cariocas que me receberam como se eu já fosse um deles há muito tempo. E até não-cariocas, que nem estava tão longe geograficamente assim, mas que decidiram viajar mais alguns quilômetros para deixar o meu RJ mais lindo. A bagagem que volta é maior do que a chegou. Conhecimento e saudade pesam muito, bem mais que os 23 quilos da classe econômica. Preenchem a alma e apertam o coração. Sim, Gilberto Gil tem toda razão, o Rio de Janeiro, assim mesmo, como todas as palavras que o nome tem, continua lindo.

De volta ao ar de vez.

"...Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe, e só levo a certeza de que muito pouco eu sei, eu nada sei...".